Eu era bem pequeno, lá pelos quatro ou cinco anos, quando comecei a ter amiguinhos, logo percebi que eles tinham algo muito importante que eu não tinha.
Todos eles tinham “PAI”, uns contavam que foram jogar bola com o pai, outros nadar com o pai, outros tantos, andar de bicicleta , e eu.......?
Certo dia, percebendo essa ausência, perguntei à minha mãe:
- Cadê meu pai?
Ela toda desconsertada me respondeu:
- “Quando você tinha um ano Deus o chamou e ele foi morar numa estrela”.
No tom que ela contou, aquilo se pareceu como sendo um privilégio, uma graça divina, e em respeito à ela, nunca mais toquei no assunto.
Mas eu queria ter também aquela figura parental tão importante e eu pensava:
Por que? Justo o “meu” pai tinha que morar numa estrela?
Criei o hábito de todas as noites olhar o céu, procurar as estrelas mais brilhantes para ver se via o Bíli Colosso numa delas, por anos a fio nutrí uma esperança que um dia ele voltaria e eu o abraçaria tão forte que iria me “fundir” nele e então eu agradeceria a Deus pelo tão esperado presente.
Quando me tornei pai, me proibi de continuar o hábito de olhar as estrelas e disse para mim mesmo: “Fique com os pés na Terra, foque sua atenção e sua energia em ser um bom pai e isso te compensará”.
Bem! Hoje meus filhos são adultos, bem formados, independentes, então passei a me permitir novamente observar as estrelas.
Eu havia perdido a esperança que meu pai pudesse voltar, mas renovei a fé ao ler o livro “O Pequeno Príncipe” cujo personagem assim diz para um aviador caído no deserto, um amigo recém cativado:
“As pessoas veem as estrelas de modo diferente, para quem viaja as estrelas são guias, para outros apenas luzes; Quando você olhar o céu à noite, eu estarei numa delas, rindo para você, e então será como se todas elas rissem, desse modo, só você terá estrelas que sabem rir.”
No continuar da história o piloto consegue consertar seu avião e voltar para casa.
Daí, na última página do livro o aviador se dirige ao leitor dizendo assim:
“Se um dia, você viajar pelo deserto, peço-lhe que não passe apressadamente, detenha-se um pouco sob as estrelas, se então um principezinho se aproximar você adivinhará facilmente quem é ele, então, lhe peço: Seja gentil comigo! Escreva-me logo dizendo que ele voltou.”
Bem, agora do alto dos meus cabelos brancos, confesso que a longo tempo atrás voltei a toda noite olhar as estrelas e pensar que “ainda” é possível que ambos (Bilí e o Pequeno Príncipe), voltem, porém se não voltarem, quem sabe, Deus me dá a mesma graça dada a eles e eu também um dia poderei ir com eles lá morar.
Porém, peço a você leitor:
Pense que o seu pai é humano e como tal imperfeito, se você tiver alguma mágoa dele, esqueça e se ele ainda estiver entre nós, corra até ele, abrace-o tão apertado a ponto de fundir-se com ele, diga olhando nos olhos dele:
Pai! Eu te amo. Antes que ele vá fazer companhia ao Bilí Colosso e ao Pequeno Príncipe, mas, se ele já tiver ido, pense nele e diga :
Pai, espere por mim, já estou indo........
Antonio de Pádua Colosso é Educador, Psicanalista e Grupanalista
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